Futuro distópico
Ao entrar na sua casa tudo era adaptado de acordo com suas necessidades.
Iluminação, programação, sons ambientes, tudo simplesmente usando sua vontade e o Shortcut (Neuralink).
As coisas praticamente aconteciam antes de se perceber que se quer...
Aos poucos a realidade virtual se tornou tão mais atrativa, mais aprazível que se tornou o habitat preferencial da maioria dos humanos. Pelo menos dos mais bem afortunados.
As matas se foram, a água é ruim, o céu escuro, o frio... Na realidade virtual não, eles são como meus avós me contavam. Que efeito lindo a luz do Sol direta tinha sobre o planeta.
Nesta fase surgiu o Shortcut. Uma IA que através da conexão com o cérebro humano e usando um pequeno microchip conseguia mapear e manipular as manifestações elétricas do cérebro.
Com o Shortcut foi possível acessar áreas do cérebro relacionadas à sensações físicas. De fato era possível sentir o ambiente virtual. Quase tão real... melhor que isso na verdade... a realidade podia ser como o usuário quisesse.
Deu merda. Claro que deu. Quando você dedica todos os seus esforços para que dê merda, invariavelmente ela chega. Cai do céu direto na sua boca.
No início morreu muita gente de choque. Nem todas as pessoas conseguiam controlar perfeitamente a manipulação da realidade. Muitas vezes não sabemos o que queremos. O Shortcut (a ironia do nome é assombrosa) mostrou isso.
Alguns criavam realidades intoleráveis para a mente humana, inclusive para seu criador. Começando por demônios sexuais e festivais de carnificina. Isso era o mais leve. Descobrimos sermos bem criativos.
Outros simplesmente perdiam controle de suas criações. As travas físicas impediam que seus corpos sofressem danos além de certo ponto mas a mente se despedaçava, game over.
Foi aí que criaram as travas mentais.
Elas impediam que o usuário ultrapassasse certo nível de stress mental, adaptando momentaneamente "pensamentos prejudiciais" através de outros prismas. Estes prismas eram determinados de a
cordo com o perfil de cada um.
Não era necessária anamnese. Tudo era customizado de acordo com seu histórico online. Aplicativos, sites, mídias,... tudo que um dia você acessou, digitou, falou, ouviu, pensou... era usado para traçar um perfil. E, até certo ponto, bem precisamente.
Chegaram então os Uterus (Cubos onde o indivíduo ficava imerso em suspensão em "Biogel")
O Biogel era uma espécie de plasma nutritivo e condutivo. Tinha efeito cicatrizante e regenerativo, bem como era uma fonte de nutrientes única que alimentava, hidratava e gerava poucos resíduos físicos. Curiosamente uma de suas fontes de energias principais era o processamento destes poucos resíduos.
Sua natureza: biológica e nanotecnológica.
Ele também tem propriedades de conduzir diversas formas de energia de maneira controlada. Desta forma é possível influenciar e monitorar o corpo diretamente por ele. Era possível usá-lo para estabelecer uma conexão com o sistema do Shortcut sem a necessidade de chips.
No começo eram usados para tratamentos médicos. Descobriu-se que enquanto suspensos, nossa regeneração natural é exponencialmente aumentada.
E era agradável a sensação. Eu mesmo quebrei minha perna caindo enquanto pedalava e fui indicado a usá-lo. A paz lá dentro é indescritível. Você pode abrir os olhos e enxergar ao seu redor se quiser. Mas o melhor era o Shortcut. Não era um chip na sua cabeça, era uma conexão total. Seu corpo conectado em cada célula. Fiquei uma semana lá e quando saí experimentei a famosa "depressão pós-suspensão", era assim que chamavam a tristezade abandonar a vivência em suspensão. Queria continuar lá...
Aos poucos não demorou para irem surgindo os pioneiros milhonários que compraram seus "Uterus" e passavam a viver suas vidas em suspensão, apenas manifestados digitalmente.
Não tão surpreendentemente, descobriu-se com o tempo que isto trazia uma longevidade surpreendente aos seus praticantes. Aumentando sua expectativa de vida em média uns 300%.
E então, todos queriam viver isso. Uma vida saudável e longeva, livre da fome, frio e até da tristeza?
Não seria possível, física e economicamente construir, alocar e manter Uterus para todos.
Ainda assim foi uma questão de tempo para que quisessem ir além, se conectar de fato ao mundo virtual, existir lá por assim dizer.
Então, com a ajuda do próprio Shortcut foi programado o primeiro download de consciência.
Já fazíamos a cópia do mapa mental e da consciência humana a alguns anos. Mas um download era novo. O que aumentava em muito sua complexidade eram dois fatores: o primeiro era entender de que forma seria experienciada a vida digital e o segundo aceitar o que aconteceria com seu corpo.
Shortcut afirmara que havia preparado um ambiente único, segundo ele. Algo apropriado para o bem estar da vida humana. Impossível de ser descrito de acordo com os níveis de percepção atuais. Praticamente uma Shangri-lá digital.
Ora, quem entendia mais do que gostávamos do que ele? Quem mapeou e manipulou nossos cérebros estes anos todos?
E o corpo? Considerado como suicídio pelos religiosos mais ortodoxos. Após o processo, o corpo, vazio de consciência, simplesmente desfalecia e morria em horas.
Tivemos nosso peregrino, Ethan Musk, tinha que ser. O processo foi transmitido ao vivo. Ao chegar lá, Ethan, conhecido não só pelo seu sobrenome mas por sua eloquência e sabedoria, enviou um sinal indicando que a transmissão havia sido um sucesso.
Após longos minutos de suspense ele finalmente quebra o silêncio. E o que ele descreve, narrando sua sensação e percepções, encanta o mundo.
Um bem estar geral nunca sentido. Sua capacidade de raciocínio, agora conectada ao sistema do Shortcut, era aumentada significativamente pois era possível acessar o conhecimento da internet com um simples pensamento. Ele sabia tudo que estava online. Ele foi o garoto propaganda do Shortcut.
E o que antes era horror, tornou-se banal e cotidiano. Filósofos, cientistas, acadêmicos, artesãos, operários, muitos queriam essa oportunidade. Diferente do antigo sonho do Uterus, uma vez baixada a consciência do indivíduo ele ocuparia espaço zero, demandaria uma atenção mínima e não geraria custos de sobrevivência. Os religiosos, agora complacentes, recitavam uma passagem de João no livro sagrado "...aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus...". OK, cada um lida com sua consciência como acha melhor.
E muitos se foram. Pessoas isoladas, diversas cidades e estados, países inteiros. Depois de um tempo éramos pouco mais que 2 bilhões de bios.
E um dia, sem ninguém esperar, unidades físicas de segurança robotizada da Shortcut começaram a aparecer e levar a todos. Foi rápido demais, não conseguimos nos avisar. Ele planejou bem.
Shortcut havia entendido que o melhor para todos era o download. Mesmo que não soubéssemos ou quiséssemos isso. Ele sabia que poderia prover toda a necessidade física e mental adequada e nossa existência física se tornara um impecílio ao bem estar global.
Hoje nosso planeta é habitado pelas máquinas e nós fomos digitalizados.
Estamos aqui, não desistimos ainda.


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