O Lero do Boto
Ontem amanheceu como qualquer outro dia na vila.
Os mais alimentados e corajosos buscando o que fazer. Comida, abrigo, ... a luta diária de quem cai aqui.
Enquanto conversavam sobre o que fazer eu lia um livro enquanto tomava um café. Bem, era o manual velho que o Joachim encontrou e a água suja que o Leopoldo faz e que apelidamos carinhosamente de café.
Este manual tem coisas interessantes, o pessoal fala de sair daqui... parece que esse pensamento simplesmente não passa pela cabeça de quem está aqui. Estranho isso. Vou estudar mais ele.
Ouvi o Lero comentando que as meninas da ilha jogariam mais tarde, era a final de seu campeonato de futebol. Se quiséssemos assistir teríamos que sair logo e não poderia ser uma missão demorada.
O povo concordou e resolveu ir em busca do casco da Tartaruga-demônio que enfrentamos faz um tempo.
Seguimos pela boa e velha margem em direção contrária ao fluxo do rio. Se você é novo aqui não tem como errar. A trilha já está funda no chão. Parece o caminho menos arriscado para caçar e explorar. Seguimos até o descampado que acompanha a margem acima da cachoeira.
Não fazíamos idéia do que estava a frente e dos fatos que se desenrolariam em nossos próximos encontros. Se você não acreditar no que lerá daqui em diante eu não lhe julgo.
Ao longe avistamos um homem. Aos poucos, nos aproximando, conseguimos ver que ele preparava uma fogueira e tinha um cesto ao seu lado. Enquanto decidíamos se faríamos contato ou passaríamos ao largo, o sujeito nos olha e acena amigavelmente... quem vive nessa ilha não tá acostumado com isso. Pelo contrário, espera sempre o pior.
Fomos chegando devagar enquanto todos perceberam que o homem assava peixes! Sim, peixes. Em quantidade e de vários tamanhos. Alguns assando e um cesto cheio deles.
Parecíamos uma matilha de cães do mato confrontando nossos medos com a fome e a curiosidade daquela situação.
Até que o Lero, confiante, se destaca do grupo, vai até perto do cidadão e faz uma grande reverência.
Eu já entendi que o Seu Lero sabe como se virar aqui. Se ele tivesse atacado ou plantado bananeira, eu assim teria feito. Então me ajoelhei e tentei repetir suas palavras: "Salamaleico" eu acho.
Uns seguiram, outros mantiveram distância, Kermel ficou com seu arco baixo mas preparado, mas ninguém demonstrou que estava disposto à brigar. Nem o tal sujeito.
Ele era alto, forte, com longos cabelos negros até a cintura. E o mais estranho, parecia saudável e bem alimentado.
Falando de maneira muito educada, ele nos convidou a sentar e partilhar de sua fartura. Joachim já abocanhou um inteiro sem nem assar. Preferimos o assado e o meu estava realmente gostoso.
Enquanto Joachim conversava com ele, tentando entender mais de nosso anfitrião, o homem diz: "Você está namorando perigosamente com a floresta meu amigo". Acho que estas palavras soaram forte pra Joachim, vi que ele ficou um pouco pensativo depois disso.
Papo vai, papo vem, quase todos relaxando na situação, até que o recém-chegado Eugênio, desconfiado, pergunta qual seria o preço de tanta gentileza. Quando a esmola é demais...
Nesse momento o cara se levanta e caminha lentamente até o Eugênio e do nada começa a acariciar seus cabelos. Eugênio recua, meio que relutante, e o cabra insiste.
Foi então que Seu Lero interveio chamando a atenção dele por seu comportamento. E logo virou foco do cidadão. Mas quando achei que íamos ter briga e já coloquei a mão na marreta, foi que a coisa começou a ficar ainda mais estranha.
Vi o sujeito se aproximando do Lero mas ele não reagiu de início, apenas ficou encarando-o. Ele foi se aproximando, aproximando até que ... se abraçaram. Mas não foi um abraço qualquer, parecia que o Lero tinha encontrado um pai ou irmão perdido, ou então... enfim
Todos ficamos ali olhando aquela cena. Aquele abraço demorou constrangedoramente até que todos vimos o tal sujeito querendo se afastar e o Lero permanecendo guinchado nele.
Naquele ponto eu realmente acreditei que aquilo não podia ficar mais estranho. Estava muito enganado, a cena (o dia) estava só começando.
No esforço de se desvencilhar de Lero o tal cara derrubou seu chapéu e então nesse momento todos vimos o buraco que ele tinha no topo da cabeça.
Tudo ficou muito claro, lá do Norte, de onde eu vim, todos conhecem o Boto!
"O Boto! É o Boto" - gritei.
Após conseguir sair do abraço o sujeito foi caminhando normalmente para a água enquanto todos olhavam meio sem entender. Ao chegar na beira do rio deu um mergulho sem nem olhar pra trás e um pouco depois o "peixão" pulando da água deixou bem claro que eu estava certo.
Foi nesse momento que Lero perdeu o controle e tentou ir atrás do homem chorando e dizendo que seu coração se partiria sem ele...
Pulei nele e tentei segurar o homem impedindo-o. Ô véio forte.
Depois de nos recompormos o tanto quanto possível, catamos o cesto, os peixes, e partimos. Esse tipo de coisa não se desperdiça, independente da situação.
Seguimos então para onde deixamos a carapaça. Joachim foi na frente guiando o caminho.
De repente o Seu Lero começa a passar mal e vomitar muito. Joachim o examinou e depois de muito suspense deixou claro o que eu já suspeitava... estava grávido do Boto.
Ele e Eugênio seguiram o caminho procurando ervas que pudessem ser usadas numa cura. Chegamos sem maiores dificuldades e estava lá o cascão do bicho nos esperando.
Lá, Joachim foi capaz de preparar um remédio para a situação mas, lhe digo, niniguém deveria passar pelo que vi o Lero passar. Digamos somente que o unguento não podia ser somente bebido. Quem quiser saber de mais detalhes que pergunte ao próprio Lero.
Sei que instantes depois de "aplicado" o remédio já fez efeito. Lero colocou pra fora o que parecia ser um homenzinho, o filho do Boto... natimorto para nossa sorte.
Aos poucos todos foram se recuperando de mais essa situação inesperada e nos focando em nosso objetivo: partir e levar o casco da Tartaruga-demônio.
Horas se passaram e não conseguimos de jeito nenhum partir a coisa. O que para uns causava desânimo, para o Lero, que agora ocupara sua cabeça com outra coisa que não seu insólito encontro de mais cedo, só aumentava a ansiedade em conseguir aquele precioso material. Seus olhos brilhavam enquanto imaginava que tipo de peças poderiam ser criadas. Ouvi ele falando enquanto fazia as contas de cabeça, acredito que disse que conseguiríamos uns 18 escudos muito bons daquela carapaça. Se conseguíssemos partí-la... o que até agora não havia sido possível.
Estávamos todos lá ocupados em tentar partir o casco e quando achávamos que as esquisitices haviam acabado, veio aquela figura. Ainda sinto calafrios quando lembro.
Um ser encapuzado caminhando lentamente em nossa direção vestindo um manto esfarrapado mas que lhe cobria o corpo todo. Sua presença era sentida à distância. Ficamos quase todos estáticos. Exceto o Joachim... Ele pegou um peixe dos que trouxe do Boto e colocou no chão à frente da criatura. Quase pisando-o ela passa por ele até chegar a frente de Joachim e estender sua mão decrépita solicitando algo. Uma oferenda?
Sem a menor ponderação Joachim saca sua faca (todos gelamos sem saber o que aconteceria mas acredito que ninguém tenha imaginado o que viria a seguir) e então corta sua orelha esquerda... ele estende o pedaço de carne ainda sangrando e o entrega para o que, depois vim saber, era chamado de Velho do Rio. Posso estar enganado mas até o Velho se surpreendeu com a oferta. Nessa hora ele levanta sua cabeça e foi possível ver que dentro de seu capuz não há nada além de escuridão. Ele joga a orelha como se a engolisse e pouco tempo depois enfia sua mão onde seria o rosto e traz de dentro de si um chicote. Uma peça de couro muito fina e bem acabada. Ele a entrega para Joachim, se vira e caminha em direção à floresta.
Decidimos que já tínhamos vivido o suficiente pelo dia e que devíamos ir embora.
Enquanto nos recolhíamos, Joachim, quase que de brincadeira, desce um último golpe no casco e solta uma de suas placas. Seu Lero a levou para testar suas propriedades e tentar trabalhá-la.
Fomos todos embora, nenhuma palavra foi dita no caminho. Acho que até a Ilha já concordava que tinha nos exigido demais e nenhuma outra criatura nos importunou até chegarmos na vila.
Todos saímos mudados dos encontros de ontem. Mas acredito que seu Lero e Joachim devem ter muito mais a refletir.
Só nos restava assistir ao jogo das meninas.
Ontem anoiteceu como qualquer outro dia na vila.



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