O pecado original (revisitado)
E se...
O problema não for uma maçã que faz saber a diferença do bem e do mal ao ser comida. Nem a proibição de Deus a fazê-lo.
E se a idéia fosse só explicar como as coisas funcionam e tivéssemos interpretado mal?
"Deus não coloca leis proibitivas, ao contrário, a Natureza expressa-se sempre como potência."
Deus revelou a Adão que comer a maçã seria ruim, o mataria. Mas bradar a consequência necessária é diferente de mostrar a necessidade da consequência. Para elucidar, vamos pensar um fruto venenoso, em vez de proibido.
Mas Espinosa nos propõe ir além:
"Adão percebeu a revelação, não como verdade eterna e necessária, mas como lei instituindo que um certo proveito ou dano será a consequência de uma certa ação. Não por uma necessidade inerente à própria ação, mas em virtude do capricho e mandamento absoluto de um príncipe”
– Espinosa, Tratado Teológico-Político, IV, 9
A questão é que ao presumir que sabemos discernir perfeitamente esta diferença estamos em "pecado", comemos do fruto proibido de uma soberba indescritível. Em sendo assim não aproveitaremos mais o paraíso, ou a paz de espírito, pois isto não nos pertence mais, será como a morte.
Pelo menos até que consigamos reconhecer que esta distinção nem sempre é possível ou mesmo existente. E assim encontrarmos nosso paraíso, nosso equilíbrio.
Na filosofia de Espinosa, a Razão, assim como a Liberdade, é uma dura conquista. Ninguém nasce racional. Basta olhar para a primeira infância. Percebemos uma disposição positiva em viver, um organismo disposto para existência. Somos Conatus desde o início, mas não racionais. Os homens nascem ignorantes. Eles não conhecem o mundo nem a si mesmos. A razão é, portanto, adquirida em um processo de experimentação e vivência.
Desfeitos os mal entendidos, polidas as lentes, o mito do pecado volta a ser interessante. A inocência antecede o erro, o pecado – entendido como simples mau encontro – não é, necessariamente, resultado de tendência ao mal, mas talvez apenas ignorância. Não podemos inverter a ordem do conhecimento, a experiência vem sempre primeiro.
E através desta experiência, destes erros e acertos, vamos aprimorando nosso entendimento daquilo que Deus ou a Natureza querem nos revelar.
"É todo o dia afiar a espada, na pureza e na oração." (Pad. Paulo Roberto)
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