Um sonho a mais não faz mal

 

Depois de um tempo optei por não ter mais sonhos.

Não é um posicionamento pessimista, não me entenda mal. Muito pelo contrário!

Aprendi a admirar quando a vida me surpreende. Normalmente me sinto no controle mas de vez em quando... a onda que você estava curtindo muda de repente e do meio da curtição pura vem o medo por um microssegundo ... e a confiança que se segue que tudo ficará bem.

Come onça!

Minha falecida mãe se surpreendeu quando eu disse isso. Quis me vender a história de que sonhar era importante. Ou assim percebi na época.

Reconheço a ousadia de quem opta por sonhar. Mas acho a aposta é alta. 

Depois que percebi que não tenho a capacidade de projetar "com precisão" aquilo que acontece adotei o estilo "Laissez faire, laissez passer". A surpresa é boa. Talvez você não vá gostar no início mas depois se acostuma...rs A mudança não pede passagem, ela simplesmente acontece. Ou você acontece ou ela acontece. 

Aceita que dói menos. As vezes se resume a isso. E as vezes só falta perceber que aquilo que veio ou foi é bom pelo fato de ter vindo ou ido.


"Mas não era disso que eu queria falar! Eu queria falar de Zé Ramalho" (Oswaldo Montenegro)


Em algum lugar da minha memória vejo a minha mãe cantando "Whisky a Go Go" em casa. Só sei o nome dessa música por conta dela. E por ser um dos hits mais cantados com erro na letra pelo "Eu perguntava tudo em holandês".

Sempre achei minha mãezinha linda. Mas quando ela cantava eu adorava. Não que ela cantasse maravilhosamente, mas quando se vê quem se ama cantando acredito que sua felicidade seja contagiante. Pelo menos assim eu me sentia ali, como diante de uma princesa de conto de fadas.

Hoje percebi que, tirando a óbvia nostalgia que essa música devia causar nela, lembrando dos bailes que fugia para ir e dos discos que ouvia muito que mais que das Cubas Libres, alguns trechos falavam muito a ela e a mim. À nossa relação como mãe e filho.


"Senti na pele a tua energia

Quando peguei de leve a tua mão

A noite inteira passa num segundo

O tempo voa mais do que a canção"


Quantas vezes ouví-la dizer que "quando pegou na minha mãozinha se encantou". Que passou noites acordadas por mim (por nós futuramente) mas que não se arrependia, que "nasceu para ser Mãe". Você foi muito mais.


"Eu perguntava: Do you wanna dance?

E te abraçava, do you wanna dance?

Lembrar você

Um sonho a mais não faz mal"


Pausa para o LP "Do you wanna dance?" que meu Pai deve tê-la presenteado. E que, só hoje confirmei que é a referência da música, com a primera faixa homônima ao álbum, interpretada por ninguém mais, ninguém menos que ... Johnny Rivers. Outro disco que ouvi ad eternum com minha mãe. Talvez quase tanto quanto o que tinha "La casa de Irene" de Torrebruno. Descobri hoje também.

E volto ao papo do sonho e da minha mãe falando comigo, já velho, o quão importante pra ela era ter sonhos. Ela realizou muitos. Ela era terrível no melhor dos sentidos.


"Na minha fantasia

O mundo era você e eu"


Devido às condições que meus poderes me impuseram não posso sair muito. Mas costumo me imaginar em aventuras. Nada extraordinário pois assim já é a minha vida. Gosto de me ver em situações comuns. 

Hoje me vi num bar com meu cachorro, tentando fazer meu pedido enquanto evitava que ele comesse os restos de comida do chão.

Consegui e me sentei ainda tentando contê-lo e comecei a prestar a música que tocava. Não me lembro qual era mas já estava no fim. Quando de repente toca ... "Whisky a Go Go"... e então tudo isto que escrevi acima me veio à mente. 

Ele me driblou e conseguiu comer um pedaço de ovo seco que estava no chão.

Ambos voltamos com mais do que fomos buscar.



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