Ponto de Apoio, Serenidade e Amor
Às vezes me pergunto até que ponto é justo usar ideias de homens que viveram em épocas tão distantes para pensar a minha própria vida. Eles não falavam de mim. Eu não existia no horizonte deles. Ainda assim, algo do que disseram insiste em atravessar o tempo.
Arquimedes dizia:
“Dê-me um ponto de apoio e uma alavanca longa o suficiente, e moverei o mundo.”
Ele falava de física. De forças, distâncias e proporções.
Mas o princípio me alcança de outro modo: não é a força bruta que move o mundo, é a posição a partir da qual a força é aplicada. Talvez, na vida, o ponto de apoio não precise estar fora do mundo. Basta estar menos colado a ele.
Esse descolamento não é fuga. É serenidade.
A chamada Oração da Serenidade, muitas vezes atribuída a São Francisco de Assis, foi formulada no século XX por Reinhold Niebuhr, que escreveu:
“Concedei-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar,
coragem para mudar as que posso,
e sabedoria para distinguir umas das outras.”
Sempre achei essa última linha a mais difícil.
Aceitar e agir não são problemas opostos.
O problema real é discernir.
Distinguir exige presença. Exige tempo. Exige aceitar que nem sempre sabemos, no calor da vida, se aquele momento pede razão, ação ou silêncio.
E quando não há tempo para pensar longamente, volto a Paulo.
Paulo escreve aos Coríntios:
“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como metal que soa ou címbalo que retine… agora permanecem estas três coisas: fé, esperança e amor. O maior destes é o amor.”
Não leio isso como hierarquia religiosa, mas como critério humano.
Quando não sei se devo aceitar ou mudar, quando erro mesmo tentando acertar, quando a razão chega tarde demais, o amor — entendido como ágape — ao menos reduz o dano. Ele não garante acerto. Mas preserva a humanidade do gesto.
Talvez eu esteja relendo autores que falavam de outro tempo. Faço isso sem a pretensão de representá-los. Faço porque aquilo que disseram ainda encontra lugar em mim.
Se Arquimedes me lembrasse que não falava de vida, eu concordaria.
Se Paulo perguntasse se isso gera amor, eu responderia que tento.
Se Niebuhr me alertasse contra slogans fáceis, eu assentiria em silêncio.
Não busco mover o mundo.
Busco um ponto de apoio suficiente para não ser arrastado por ele.
E, talvez, isso já seja bastante.

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